Chapter 1
A casa respirava. Não como um pulmão, mas como uma coisa que se lembra de respirar. O ar entrava pelas frestas das janelas e saía pelas fechaduras, um sopro morno que cheirava a poeira e a ferro.
Eu estava deitado. O teto tinha uma rachadura que eu não conhecia. Ela se movia? Não. Estava lá, fixa, um risco escuro no reboco branco. Fechei os olhos. O peso do cobertor era errado. Pesado demais. Como se alguém estivesse sentado sobre ele, nos meus pés.
Abri os olhos. A rachadura agora tinha um formato. Um braço. Uma mão. Dedos longos que se espalhavam pelo teto. Piscaram. Estavam apenas lá.
Levantei. O chão estava frio. Não de frio, mas de umidade. Meus pés afundaram um pouco, como em lama. Olhei para baixo. O assoalho era de tábua corrida. Seco. A sensação persistiu.
Fui até a cozinha. A torneira pingava. Uma gota. Duas. O som era alto. Enchia a casa. Cada gota caía dentro do meu ouvido. Virei a torneira com força. O metal cedeu como cera. A água parou. O silêncio voltou, mas era um silêncio denso, que zumbia.
Na mesa, um prato. Comida. Arroz, feijão, um pedaço de carne. Não lembrava de ter cozinhado. Sentei. Peguei o garfo. A carne estava fria. Cortava fácil. Levei à boca. Mastiguei. O gosto era de terra. Engoli. O bocado desceu, mas não parou no estômago. Continuou descendo, pesado, por dentro das minhas pernas, até os pés. Senti meus dedos do pé ficarem rígidos.
Olhei para o prato de novo. Estava vazio. Limpo. Não lembrava de ter terminado.
O corredor era longo. Mais longo do que a casa por fora. As portas estavam todas fechadas. Não me lembrava de haver tantas portas. Toquei numa. Fria. A maçaneta tinha o formato de uma boca. Não virei.
Uma voz veio de trás de mim. Não era uma voz. Era o som de alguém pensando muito alto.
Você não trancou a porta.
Virei. Não havia ninguém. Apenas o corredor, que agora parecia mais curto. A porta no fim era a do meu quarto.
Voltei para a cama. O cobertor estava arrumado. Perfeitamente esticado. Deitei. O teto. A rachadura. Agora era só uma rachadura. Fechei os olhos.
O som de uma gota. Uma única gota. Caindo no metal da pia.
Abri os olhos. O teto da cozinha. Eu estava de pé. A torneira pingava.
Olhei para as minhas mãos. Estavam sujas de terra. Não, de comida. Não, de terra.
A casa respirou de novo. O ar entrou. O ar saiu.
E eu não sabia se era eu que estava prendendo a respiração, ou a casa.