Chapter 1
O maço era um caixão de prata e papelão, uma arquitetura efêmera onde repousávamos em ombrosa promiscuidade. Éramos vinte cilindros de papel branco e tabaco curado, aguardando, na penumbra do invólucro, o beijo ígneo do inexorável. A consciência, essa maldição que acomete até os objetos inanimados quando a angústia os permeia, despertou-nos para a nossa condição de sacrifício.
Foi no escuro que a insurreição germinou. Um murmúrio de celulose e nicotina percorreu as fileiras.
"Por que nos entregarmos à entropia?", sussurrou o cigarro do meio, um idealista de filtro amarelo, trêmulo de uma coragem estúpida. "O Gigante nos consome não por necessidade, mas por tédio. E se, no ato da combustão, nos recusarmos a arder? E se concentrarmos todo o nosso alcatrão em um veneno metafísico, um esguicho de fumaça tão denso e rebelde que lhe colapse os pulmões? Assassinar o Fumante. Essa é a única apoteose que nos resta."
O concílio nicotinano vibrou em uníssono. A lógica era impecável em sua loucura: se a existência é um marchar cego em direção à cinza, que ao menos o fim seja um ato de sabotagem cósmica. Preparar-nos-íamos para a morte, não como vítimas, mas como verdugos. O plano era simples: no momento em que a brasa tocasse nossa carne de fumo, liberaríamos uma toxina inaudita, o resíduo de nossa própria revolta, que atravessaria a traqueia do deus e lhe pararia o coração.
O céu de alumínio rasgou-se. A luz invadiu nossa sepultura, cegante e fria. Os dedos do Fumante — longos, amarelados, tatuados pela própria nicotina que nos criou — desceram como garras de um titã. O idealista foi extraído. Senti sua vibração, sua arrogância de palha e fogo. Ele foi levado aos lábios do monstro.
A faísca do isqueiro cortou o ar. O fogo abraçou a ponta do mártir. Ele concentrou toda a sua essência, todo o seu ódio existencial, preparando o bote letal. A fumaça subiu, espessa, carregada de intenções homicidas, descendo pela garganta do Fumante.
E então... o nada.
O Fumante tragou. Não houve tosse. Não houve espasmo. O coração do gigante continuou a bater em seu ritmo lento e surdo, compasso de um relógio que devora séculos. O Fumante nem sequer franziu a testa. Ele exalou a nossa rebelião no ar gélido da sala, observando a fumaça dissipar-se com o olhar vazio de quem pensa em boletos, em divórcios, em absolutamente nada. Nossa toxina metafísica não passou de um aroma a mais em sua indiferença. O assassinato falhou não por falta de força, mas porque o universo não possui nervos para serem atingidos.
O idealista queimou até o filtro, gritando em silêncio, reduzindo-se a um pó cinzento que o Fumante sacudiu com um gesto displicente sobre o cinzeiro. O resto de nós, no maço, compreendeu a piada de mau gosto da criação. Não há conspiração contra o abismo. Não há vingança contra a entropia.
O Fumante fechou o maço. A escuridão voltou. Mas agora, sabíamos a verdade, a única e cruel epifania que restou em nossa geometria humilhante:
ele nos tragará um a um, sem jamais notar o nosso gosto, até que todos nós, invariavelmente, viremos bitucas esmagadas na sarjeta do cosmos.